sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Miguelópolis Revisited




Há tempos perdemos a intimidade
Dessa cidade, conheço as ruas a dedo
Carrego comigo, seus medos, seu pó nas narinas
E da infância, reminiscências e alvitres nas retinas

Sinto falta da bicicleta, do Rio Grande, da bola e do rolimã
Do campinho do Sílvio, da Cohab, da casa 115
Frutas da época: carambola, goiaba vermelha, manga e romã
Saí muito jovem, ainda tinha a mente sã

A Matriz está lá, as velhas e seus escapulários
Defronte ao Bar do Joaquim, sem as árvores, o Santuário
Sua fonte e nos seus bancos ainda sentam corruptos e salafrários
Onde os jovens se encontram e verbalizam sem horário nem dicionário

O Estádio Waldemar de Freitas e suas falhas na grama
A esquina da Nenê não tem mais o pé de boldo nem a roseira
Poucos amigos restaram, besteira
Sou saudosista, que pieguice
Na Socremi, encontrava-me com a Inês, a Fernanda e a Clarisse

Passando pelas ruas retas e largas, olho para o céu a caminho da Marcenaria do Miguel
Ainda desvio dos ciclistas, dos cachorros e das carroças vou escapando
Logo ali, depois da Radio Vale, pelo Cartório do Sr Didi, passo acenando
Lá, algumas coisas nunca mudam, de rostos e lugares vou lembrando...
A loja da Dona Célia, a sorveteria do Florisvaldo, a Casa São José e o Bar do Zé Fernando

Estão todos imunes ao tempo, para minha saudade contemplar
Amigos de infância, fatos, mitos e insights em reentrâncias
Em verdade, com sinceridade, escute-me, vou falar:
Tenho corpo e labor em outro lugar
Mas, foi lá que meu coração nunca deixou de habitar

domingo, 8 de novembro de 2009

Zé-do-Burro, o pagador de promessas




Vi tudo de longe, pela grande tela

Zé-do-Burro, faca em punho, avança pelas escadas velhas

Pelo sacro-dever, o padre o impede, a promessa não se cumprirá

O delegado antecipa-o, quem lhe desafiará?

O povo lhe defende, surge uma onda humana

Na confusão ouviu-se um tiro, uma consternação

No meio da multidão, olhei para o lado, doía-me o coração

Estouro de boiada, corre-corre, dispersão

Na porta da igreja escolhida, Zé-do-Burro, jaz ao chão

Rosa grita, um choro em explosão

Lá vem o padre, sinal da cruz

Encomenda da alma do pobre moribundo sertanejo

Rosa o afasta, com olhar de desprezo

O Mestre Coca, capoeirista, faz gesto preciso aos companheiros

Inclinam-se sobre o corpo estendido na ladeira

Fixam-no na cruz da promessa vã

Numa nobre homenagem derradeira

Carregam-no assim, como um crucificado

O padre recua sobre os degraus ensanguentados

Avançam-no, pela entrada principal

Arrombam a porta, dirigem-se ao altar, numa entrada triunfal

Termina a peregrinação, cumpre-se a promessa ao burro Nicolau



*O Pagador de Promessas é um filme brasileiro de 1962, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, dirigido por Anselmo Duarte (Salto, 21 de abril de 1920 - São Paulo, 7 de novembro de 2009), baseado na peça teatral de Dias Gomes.

*A Anselmo Duarte e sua obra-prima, minha homenagem póstuma em forma de prosa-poética.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss, não entristeça nossos trópicos



As alianças são mais importantes

Para a estrutura social

Que laços de sangue seletos?

Culturas são como sistemas de signos

São partilhados e estruturados por finos princípios

Que estabelecem o funcionamento do intelecto


Existem regras estruturantes

Sobre as culturas, na mente humana

E estas regras raízes

Constroem pares de oposição

Organizam todo o sentido, corrigem a direção

Aprendi isso, num livro de viagem

Repleto de passagens duras

Onde o Lévi-Strauss fez investigações puras


Interessado pelas filosóficas e verdes paragens

Com o único objetivo do conhecimento pleno, das linguagens

Indagações pessoais desse paladino estrangeiro

Antropólogo que aqui veio, sorrateiro

Sobre o status de mestre

Analisou nossas tribos, nossa cultura em formação

Fotografou a urbanidade de São Paulo em construção

Entre o Velho e o Novo Mundo, uma lágrima no coração

Concepções de progresso e de civilização

Nessas plagas, tristes trópicos, nosso povo em expansão





*Claude Lévi-Strauss (Bruxelas, 28 de novembro de 1908 - Paris, 31 de outubro de 2009)



domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre a “Felicidade clandestina” de Clarice Lispector





A personagem central desse conto de Clarice Lispector, narra uma história que ocorreu em sua infância em Recife, Pernambuco.


Era amante da leitura desde tenra idade.

Mas, a situação financeira de sua família impedia-lhe de comprar os livros que desejavas.


Havia, outra garota, descrita como: baixa, gorda, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, que possuía o que uma criança devoradora de livros mais sonhava: seu pai era dono de uma livraria.

Todavia, a colega não valorizava o hábito da leitura e, pior, sentia-se inferior às outras coleguinhas de escola e bairro, sobretudo à narradora.


Certo dia, a filha do comerciante de livros, com enorme talento para a crueldade, informou à jovem que possuía um exemplar de Monteiro Lobato: O clássico: “As Reinações de Narizinho”.

A protagonista, então, passou a confabular consigo, imaginando-o em seus braços, o toque e o folhear das páginas, viver com ele, comê-lo e dormir ao seu lado.

Mas, ele estava muito acima de suas posses.


- É só pegá-lo em casa, te empresto, afirmava num cinismo juvenil, chupando balas fazendo barulho.


A jovem passou, a sonhar com a real possibilidade de tê-lo, mesmo que brevemente, por meio de um empréstimo.

Envolta em enorme ingenuidade, a menina rotineiramente passava na casa e o livro sempre estava indisponível, sob a alegação de que a garota chegara atrasada ou passara em hora errada e já havia emprestado-o a outra garota.


E esse suplício durou um bom tempo.

Até que, certo dia, a mãe da cruel colega, achando estranho aquelas visitas constantes em sua casa, interveio na conversa das duas e percebeu a atitude sádica da filha.


Houve uma “confusão silenciosa”; a mãe, estarrecida, descobriu a filha que tinha.

Uma jovem com perversidade em potencial.

Refazendo-se do choque, ordenou a filha que buscasse o exemplar de Lobato que nunca saíra de lá.

Sem pestanejar, num ato de corrigir um erro moral familiar, emprestou o livro à garota sonhadora.

E disse que seria: - Pelo tempo que desejasse.


A jovem, de súbito, passa a nutrir uma “felicidade clandestina” nunca antes provada ou sentida.

Tendo-o em posse, fez questão de esquecê-lo.

Chegando em casa, foi se alimentar, usava o tempo, ignorava-o.

Fingia que não o tinha.

Criava a “surpresa” de achá-lo, para que a tal, felicidade clandestina se eternizasse continuadamente durante o arrastar dos ponteiros.

Aquele gesto lhe trazia orgulho e pudor.

Às vezes, sentava-se na rede com ele no colo, abrindo-o e abstendo-se de tocá-lo.

Sentia êxtase puro.

Não era mais uma menina com um livro, era uma mulher com seu amante.





*Lispector, Clarice “Felicidade Clandestina” Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves 1996

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