terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O motorista, o cobrador e os marginais

Irineu, desde criança, sempre quis ser caminhoneiro.
Talvez por influência paterna, já que seu pai, havia décadas, laborava num Mercedes Benz vermelho 1113, trucado, ano 71.
Mas não o era, era motorista de coletivo na capital do estado.
Já na idade adulta fora morar em São Paulo com a esposa em busca de oportunidades melhores e com sua carteira de motorista “classe E”, presente do pai; logo iniciaria na profissão de motorista de ônibus.
E assim foi por longo período...
Irineu acordava ainda de madrugada e iniciava sua jornada a pé até a estação metrô sentido sul ao norte.
Subia em Jabaquara e descia na Estação Armênia.
Já na garagem da empresa de viação intermunicipal tomava posse de seu veículo coletivo e partia na busca intermitente a coletar pessoas, os metropolitanos.
Irineu via por meio de suas retinas, um tanto fatigadas pelo acúmulo de labor durante anos e anos, trabalhadores, desocupados, jovens em busca de um futuro promissor, jovens sem futuro algum, mulheres gestantes, mulheres com crianças, policiais, bombeiros, atletas iniciantes, professores no inicio de carreira, professores quase a aposentar, poetas e filósofos entre outros tantos.
No dia das mães último, porém, Irineu fez o que seria seu último itinerário.
Estando a conversar com o colega cobrador, ocioso naquele momento, já que quase ninguém fazia uso do coletivo naquela ocasião, percebera a entrada intempestiva de alguns jovens completamente ensandecidos e com um objetivo fúnebre: queriam dizimar vidas e adquirir matéria, não importasse quais, desde que alheias.
Fizeram-no parar. Irineu um quase herói anônimo não se deixou intimidar e numa tentativa frustrada tentou se deslocar até um DP que ficava três quadras acima.
Percebendo a alteração de rota, foi, de súbito, covardemente agredido com uma coronhada na cabeça sem chance de defesa pelo lider delinquente.
Caiu para o lado esquerdo e seu corpo se apoiou suavemente na lata do veículo.
O cobrador, dizia em ressonante voz que deveriam ter piedade de todos e poupassem suas pobres vidas.
Num diálogo ríspido e esquizofrênico os marginais ordenaram para que todos descessem. Antonio, o cobrador não mais ocioso, tentara ainda numa última atitude, arrastar o colega para fora quando se sentiu ostensivamente interrompido por uma mão armada apontando para seu peito suado e pulsante.
Todos desceram, menos Irineu inconsciente.
O pai de três meninas que ainda estudavam o fundamental sucumbiu lentamente às chamas que incendiaram todo o carro coletivo e parte da fiação elétrica e telefônica da rua em que jazia um trabalhador anônimo; em breve, manchete televisiva e primeira página do jornal sensacionalista que correria pelas bancas no dia seguinte.
Não houve gritos, talvez dor.
Mas, Irineu ficara inconsciente durante todo o período em que labaredas vermelhas e fumaça preta subiam ao céu parcialmente nublado.
Naquela manhã de outono, Século XXI a barbárie humana prevaleceu na vida daquela família, agora órfã de pai.
 
 
*Extraído de: A hora da metamorfose

domingo, 11 de dezembro de 2011

Não consegui reagir


Por favor, digam ao poeta Vinícius
Que eu tentei...
... Com todas as minhas forças


Eu juro que tentei!


Mas caí, no décimo-quinto, antes do décimo-sexto perdi
Digam-lhe que continuo sendo um modesto meio-médio
E, por favor, não apostem mais em mim





*A Rubem Fonseca

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um domingo diferente

Naquela manhã, Josevaldo acordou bem cedo.
Estava de plantão na terceira corporação de bombeiros situada na zona oeste.
Há quatorze anos Josevaldo trabalhava nessa corporação e fora condecorado três vezes por atos de bravura e heroísmo.
Certa vez, adentrou-se num prédio de sete andares que jazia em chamas e salvou a vida de uma senhora de setenta e quatro anos que desmaiara nas escadas enquanto fazia uma lenta descida.
Por vezes ajudou a apagar chamas ardentes que consumiam sem dó nem piedade tudo o que encontravam pela frente.
Atuou contra incêndios em supermercados, num pet-shop, numa papelaria e quase sempre diagnosticava a mesma origem dos incêndios: problemas nas fiações antigas que gerava curtos-circuitos fatais.
Josevaldo era admirado pelos colegas da corporação e tinha vários amigos fora dela.
Era lateral-esquerdo do time do bairro onde morava e por vezes atuou como técnico do time juvenil da “casa de recuperação”.
Sua marca: dava branidos estridentes que ativavam a molecada a correr e marcar. No time da corporação do terceiro batalhão de bombeiros atuava no ataque, sempre pelo lado esquerdo e, por sorte, fazia muitos gols, alguns belos, outros engraçados.
Essas atuações davam a Josevaldo um status de estrela do time.
Era badalado pelos colegas antes das partidas e após iam sempre se confraternizar num churrasquinho ali mesmo no campo da corporação.
Josevaldo era abstêmio, mas adorava picanha com coca-cola.
Tinha dois filhos, um menino de treze anos, torcedor do Corinthians; que deixava Josevaldo irritado, pois todos sabiam de sua paixão pelas cores do Palmeiras.
O filho mais novo tinha oito anos e influenciado pelo irmão dava impressão de ser corintiano também.
Josevaldo, à hora do jantar nas noites de quarta, se irritava com o mais jovem dizendo:
- Traição dupla em família é demais para mim. Já sou quarentão. Não me torne um cardiopata por desgosto.
O Palmeiras é nosso time, temos que adora-lo de todo nosso coração!
Os meninos riam e desconversavam pedindo para passar a salada ou coisa parecida.
Josevaldo tentou ensinar o hino do verdão para o caçula, mas naquela manhã de sábado quando flagrou o pivete lavando sua bicicleta e cantando a primeira estrofe do hino do timão da zona leste desistiu e voltou para a estaca zero.
- Um dia vou adotar uma criança palmeirense, pois o meu sangue não gerou torcedores para meu time. E ainda torcem para o time rival. Só sendo pai para aguentar!!!
Aquele domingo dia das mães estava ensolarado e fresco.
O céu azul com poucas nuvens dava um ar de meados de outono no país tropical.
Josevaldo presenteara sua esposa com um celular, da promoção, que comprara e saíra já uniformizado para o labor.
Despedira de seus filhos ao portão e fez o caminho de rotina percorrendo quase todo o trajeto de metrô.
Dia tranquilo, TV sintonizada no campeonato italiano em dia de rodada dupla e Josevaldo liderando uma tímida torcida para o Milan.
O comandante, só para irritar torcia abertamente para a Juventus que fazia outro jogo no mesmo horário e era exibido por flashes a cada dez minutos.
Mas há cinco minutos do final das partidas e do campeonato italiano, ouviu-se um som de motocicleta.
Freagem brusca, dois homens protegidos pelos capacetes fechados e uma saraivada de balas de metralhadora em direção ao interior da corporação.
Josevaldo que acabara de se levantar para observar o que acontecia lá fora foi alvejado por doze balas potentes.
Morreu na hora. Óbito instatâneo. Sem defesa.
Outros dois companheiros atingidos não tiveram o mesmo triste final e foram levados feridos para o hospital mais próximo do corpo de bombeiros da zona oeste de São Paulo.
Naquele dia, domingo dia das mães, Josevaldo não voltou para casa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

No dia onze entre vinte e nove fontes



     "I've got a feeling
                                                                  A feeling I can't hide"
                                                                             (The Beatles)



Novembro... Enquanto você tenta sorrir com a boca
Eu sorrio com os olhos
Para ti e para as outras vinte e nove fontes, sorrio


Nasci desse jeito, onírico
Não porque fui uma espécie de
Porém, equivalente à


E, percebo seus verdes  olhos cegos
Reverenciando-me, mentindo para mim de um jeito...
... Tão especial, como se criasse uma parceria


Entre...


Você foi uma garota muito má
E sedutora, minha musa fundamental
De mim, esconde a memória, os cabelos e os dados, na cartola


Nessa data repleta de números “um”, indiferente, me ignora
Mesmo sabendo que não duraremos para sempre, já estamos no século XXI
E o resto do mundo tenta ouvir The Beatles como os americanos em 1969


Crie um acontecimento midiático com esse fato
Celebre o encontro e deixe a resposta para os outros
Quando nos encontrarmos pelo caminho, dar-me-á carona?


Juntos, gastaremos todo o pagamento naquele show
Mas, só faremos as contas no caminho de volta para casa
Afinal, o importante são as memórias daquele dia inesquecível


Sob capas de chuvas, brindaremos e escreveremos cartas
Aos amigos, o Descobrimento do Brasil em 1993
Entre barcos, só por hoje, faremos um filme com todos vocês






*Homenagem aos álbuns “Let it Be” (1969), The Beatles e
 “O Descobrimento do Brasil” (1993), Legião Urbana.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O dia que não passou

Em frente ao computador, aquele homem não estava com a mínima vontade de expressar coisa alguma. Nem bebericar o café que há tempos esfriara.
Queria ir ao trabalho, vender suas cartas de crédito e seus consórcios habituais de carros, motos e imóveis.
Era alto, magro, pele pálida e lábios arroxeados como se acabasse de beber algum vinho tinto barato.
Corretor de consórcios e imóveis com registro no sindicato e no conselho regional. Mas, naquele dia não saiu de casa, ou melhor, não pode faze-lo como cotidianamente fazia.
Estava ilhado em seu próprio lar.
Nenhum contato com o mundo lá fora. Tudo estava hibernado e ocioso como uma paisagem lunar.
O homem tedioso olhava através de seu monitor 17’ enquanto navegava pelo Orkut em busca de comunidades exóticas e obcenas.
Pela TV o repórter de plantão dava suas mais recentes informações e dizia que mais um ônibus fora incendiado na zona sul.As autoridades municipais e estaduais das secretarias de segurança e transportes estavam reunidas na busca de soluções imediatas, mas pediam desesperados que a população mantivesse a calma.
O homem que labutava pelos labirintos urbanos, necessitado de transporte coletivo, ônibus e metrô, estava anestesiado nas profundezas de seu quarto-escritório.
Internet e TV ligadas simultaneamente, retinas lacrimejando pelos efeitos elétricos da tela do computador e lá ia o ser a retornar a sua geladeira duplex branca para mais uma averiguação de rotina.
Fechando-a pegou uma mexerica que estava dentro da fruteira inox sobre a mesa de madeira cor tabaco. Descascou-a e inebriou-se pelo cheiro do sumo que exalava daquela fruta amarela.
Um dia nada comum, nem mesmo aos domingos aquele magro e alto homem ficava em casa matando os ponteiros de seu relógio que insistia em girar segundo a segundo como uma ciranda interminável.
Mas ele estava lá, refém de luxo no aconchego de seu apartamento financiado pelo feirão da Caixa e com cerca de mais de dezoito anos para quitá-lo.
Era feliz, escrevia poesias nas horas de inspiração e estava aprendendo a tocar violão com uma professora negra dos olhos ainda mais negros que, quando o olhava lhe trazia bem estar e satisfação.
A professora, antes de tudo, era, para ele, um afrodisíaco afro-tupiniquim exótico.
Pensou em pedi-la em namoro, mas relutou achando ser antiético de sua parte assediar alguém que estava ganhando seu pão de maneira artisticamente singela.
Voltou à geladeira mais uma vez e encontrou um danete gelado que pacientemente foi devorado utilizando-se de uma colherinha de café.
Esse homem adorava saborear danetes com colherinhas de café.
No Orkut encontrou a comunidade "Eu Amo Os Anos 80", uma espécie de chat de música saudosista para aquelas pessoas que foram jovens nos idos anos 80.
Como ele mesmo dizia e digitava para amigos:
- Adoro aquela bateria sequinha, polida, o contra-baixo potente pontuando a canção e contrapondo-se a guitarra econômica e aquelas vozes melódicas e chorosas de Morrissey, Robert Smith, Peter Murphy e Ian McCullock.No momento em que finalizava seu danete ouvia concentradamente o álbum "Disintegration" do The Cure e lembrava nitidamente no dia em que adquiriu o disco vinil logo após seu lançamento.
Hoje, com uma mídia em MP3 com todos os discos do The Cure comprada a oito reais de um camelô na praça dos Correios ele relembrava saudosamente como era comprar um vinil novo. Inefável, pensava.
Lembrou, ainda, sem saber porquê, de seu amigo, Mario Borges, jornalista do Diário "A Cidade Em Chamas", que no mesmo instante, via pela internet e construia sua coluna do dia seguinte um texto às autoridades competentes na qual dizia raivosamente:
“Expresso de forma enfática todo meu desagravo em detrimento de atitudes nefastas como as que vem ocorrendo de forma sistemática com toda a população honesta e trabalhadora que é justamente quem mais sofre com a ausência de providencias eficazes por parte dos órgãos competentes no intuito de inibir e coibir manifestações marginais. É de nossa responsabilidade, juntamente com a união e o cooperativismo de toda a sociedade civil, reinvidicar soluções urgentes para podermos juntos, pleitear nosso Estado de Direito justo e trabalhando em prol do operário, do profissional liberal, do funcionário público e de todos os funcionário privados que laboram em empresas sérias e geram o crescimento de nossa nação brasileira”.
Esse sentimento de justiça não mais gerava alterações metabólicas naquele homem cansado do cotidiano, cansado de sua vida impar, de solidão nas noites serenas e de observações vagas nos balcões de bares suburbanos.
Resignado?
Talvez pretendesse fazer algo inútil ou gerar cinetismo naquele momento tranquilamente desesperador.
Mas a iminência ficava no pensamento.
Voltou à geladeira, olhou-a pela última vez, foi ao quarto minúsculo, abriu sua escrivaninha e retirou um objeto negro e gélido. Única herança do pai.
Após um copo de água gelada com sal de frutas para amenizar sua companheira gastrite, a vizinha de cima, quinto andar de um prédio classe baixa decadente na Avenida Robert Kennedy, ouviu um disparo e chamou a polícia.




*Extraído de: A hora da metamorfose

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sr. Geraldo e os morangos silvestres

*Em memória de meu avô.






O anjo se sensibiliza quando me fala sobre o pecado original
Faz-me perceber, ao longe, o sino, mas não consigo sentir a sua presença
E quando não há mais luz entre nós, dá-me um beijo sensual
Enquanto durmo...


Nessa noite pude lembrar-me do sonho que tive essa manhã
Estava caminhando numa cidade conhecida, ruas familiares
Muito parecidas, num bairro preto e branco
E me perdi caminhando numa larga avenida


Não havia ponteiros no relógio da torre e o do meu punho havia parado às duas e quarenta
Carruagens vagavam lentamente, seguindo um funeral
Eis que vi o corpo deitado naquele caixão branco
Tão pequeno... Pude ver a criança que jazia dentro dele


E, aproximando-me, inerte, fixei-me em sua face
Meu Deus... Era a minha, desse velho de noventa e quatro anos!
Onírico, egoísta, misantropo e extremamente metódico
Então, lembro-me que amanhã à noite receberei um prêmio em minha cidade natal


Ah, esse mérito bem que poderia ser de “O pequeno sonhador”!
O tempo pesa, sinto-me mais velho do que realmente sou
Ainda haverá perdão para os meus pecados?
Já deitado, mergulho em um sono profundo...


Sinto o calor do dia raiando, penso em me levantar
Levantar mais cedo do que o planejado, arrumar as malas e sair a contento
Sim eu vou... Não rumo ao prêmio
Rumo às reminiscências que me trarão alento



*Baseado em “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman (1957).
*A Geraldo Alves Ribeiro (15/07/1917 – 07/10/2011).

sábado, 17 de setembro de 2011

Vento no canavial


  "Tenho corpo e labor em outro lugar
                        Mas foi lá que meu coração nunca deixou de habitar."
                                                                               (Lou Marciano James)




Grandes são seus mitos, foram reais as suas lendas
Suas ciladas, que cresceram nessas trilhas como matos entre fendas
 R.I.P. Vicente Saci, Cabeça Dela, Adalgisa e o Mudinho
Japonês do alho e tantos outros de vida desgraçada


Olhando para trás, eu os aceito, a verdade está na terra
Desolada, vermelha na imensidão, descansem em paz, consolação
Deixem-me descansar também, estou farto de nadar nesse grande rio
Que ainda mata e só a minha sede é que não morre


Os que correm, são pneus enormes e deixam rastros fofos
Seu silêncio é tão breve, difícil perceber e explode como rojões
Todos os dias, segundas-feiras, sábados, domingos e dias de eleições
Explodíamos a caminho dos ranchos, sensações no relevo plano


Naquele tempo, era-me bom vivê-la, isso é certo e não me engano
De bicicleta, à Cabeça do Boi, entre os algodões do Ivo Queiroz
Os feijões do João Tadeu, margeando o Rio Grande
A Algodoeira do Mate Moisés, as casas de aluguel do Sr. Joel


Porto de areia, ranchos e roças, córrego do atalho
As terras dos Barbosa, a chácara do Quinzinho e as casas do Salim Miguel
Nas palavras, da velha cerâmica, telhas e nem a chaminé nos restou
Tudo foi demolido, inclusive os meus sonhos


Mas os cachorros... Ah os cachorros!
Proliferam-se como ratos e estão por toda parte
Eu ainda sou seguidor da liberdade e nunca houve tempo tão bom
Seu povo me mostra que a pobreza é mais rica do que a riqueza


Sua democracia é baseada na avareza
Depressões, suicídios, envenenamentos frustrados, deslizes, gritos insanos e dores do parto
Nascem e morrem, a juventude, a força, o fascínio e a decepção
Por obséquio, eis que surgem novos dias, novas ambições, falcatruas e risadas burocráticas, pois não


Dias e noites, traições são trazidas pelos ventos vindos do canavial
Que a rodeia, suas terras nutrem fogo e ignorância
Não há mais soja, sorgo ou algodão, talvez um pouco de esperança
Como é grande a riqueza e a pobreza da cana-de-açúcar, da cachaça em abundância


Grande é a velhice sensual e sedutora como aquela casinha na roça
Quero saber, desde criança, o que há lá dentro...
... Será que dentro dela há truculências, falsos planos, promessas vãs?
Onde estará a riqueza de sua alma, sua cultura e educação?


Seu orgulho e seu amor, onde estão?
Da cidade ao lado vem o emprego e seu sustento pela Usina Colorado
Trabalho diurno, trabalho noturno, o sono bate, o olho arde
Na madrugada negra, ainda faz-se tarde, muito tarde
É hora de tentar dormir um pouco, em silêncio, escondido, sem alarde




*Miguelópolis é uma cidade do nordeste do Estado de São Paulo, onde passei meus primeiros vinte anos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Entre professor...




Sou perverso e excitante, mas só quero ir para casa agora
É tão tolo, fútil e inútil cantar para alguém quando se está sozinho
Ou para alguém que já não ouve o mundo há muito tempo
Atitude típica de quem é tagarela; há muitos nessa escola velha


Falar por falar... Sendo que Deus deu-lhe apenas uma boca, minha jovem
Ganhaste dois ouvidos, somente para ouvir mais
E falar menos, enquanto o surdo segura o cesto de morangos silvestres
Seria mesmo tão horrível envelhecer segurando esse giz branco?


Envelhecer sendo egoísta a vida inteira, furando filas nos bancos
Abstêmio, sem prazeres, sem trivialidades, sem bom humor
Só crenças e desavenças permearam minha existência
Lembro-me quando era jovem, magro e ridicularizado


Isso me servia como terapia, fazia-me forte por um instante
Agora, seu assovio me perturba e suas lágrimas pertencem só a você
Elas são sagradas, são femininas e te deixam ainda mais linda
Talvez seu maior defeito seja insistir em viver pela beleza


Enquanto o meu defeito é esperar pela herança
Mas ela nunca vem, mata-me a esperança
De dias melhores, abastados, resta-me essa caixa com velhos brinquedos
E, brincando mato o meu tempo...


Ah, velho tempo!
Certa vez, disseram-me que tenho pescoço e braços bonitos
Mas, minhas pernas são finas e não consigo ir muito longe com elas
Porém, vou longe com minhas idéias, com meus pensamentos fortes


Só as cãibras poderão me deter...
... E, dói tanto sorrir para o meu diretor, dói-me tanto a face
Sou professor e não consigo ensinar
Ensinar a mim mesmo a aprender


Fui acusado de culpa, mas, de negligência nunca me acusaram
Todavia, sinto que isso possa ser verdade
Condenado! Condenado! Mil vezes condenado por culpa
Tenho pena de mim mesmo, professor, eu tenho pena de mim mesmo!




*A Isak Borg, personagem de “Morangos Silvestres” (1957). Direção: Ingmar Bergman.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Miguelópolis Revisited (parte I)

  • Letra: Lou James Jr.
  • Música: Mestre Edu
  • Voz e gaita: Savok Onaitsirk


Há tempos perdemos a intimidade
Dessa cidade, conheço as ruas a dedo
Carrego comigo, seus medos, seu pó nas narinas
E da infância, reminiscências e alvitres nas retinas

Sinto falta da bicicleta, do Rio Grande, da bola e do rolimã
Do campinho do Sílvio, da Cohab, da casa 115
Frutas da época: carambola, goiaba vermelha, manga e romã
Saí muito jovem, ainda tinha a mente sã

A Matriz está lá, as velhas e seus escapulários
Defronte ao Bar do Joaquim, sem as árvores, o Santuário
Sua fonte e nos seus bancos ainda sentam corruptos e salafrários
Onde os jovens se encontram e verbalizam sem horário nem dicionário

O Estádio Waldemar de Freitas e suas falhas na grama
A esquina da Nenê não tem mais o pé de boldo nem a roseira
Poucos amigos restaram, besteira
Sou saudosista, que pieguice
Na Socremi, encontrava-me com a Inês, a Fernanda e a Clarisse

Passando pelas ruas retas e largas, olho para o céu a caminho da Marcenaria do Miguel
Ainda desvio dos ciclistas, dos cachorros e das carroças vou escapando
Logo ali, depois da Radio Vale, pelo Cartório do Sr Didi, passo acenando
Lá, algumas coisas nunca mudam, de rostos e lugares vou lembrando...
A loja da Dona Célia, a sorveteria do Florisvaldo, a Casa São José e o Bar do Zé Fernando...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Miguelópolis Revisited (parte II)

  • Letra: Lou James Jr.
  • Música: Mestre Edu
  • Voz e Gaita: Savok Onaitsirk

Estão todos imunes ao tempo
Para minha saudade contemplar
Amigos de infância, fatos, mitos e insights em reentrâncias


Em verdade, com sinceridade, escute-me, vou falar:
Tenho corpo e labor em outro lugar
Mas, foi lá que meu coração nunca deixou de habitar

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Músicas que citam livros: Minha namorada é uma webcam - Retinas Queimadas

Minha namorada é uma webcam - Retinas Queimadas

Letra: Lou James
Música: The Saylor

Minha namorada é uma webcam
Minha namorada é uma webcam

Todos os dias ela me espera
Prá que eu chegue e a encare
Dê-me um sorriso
Aproxime-se de mim

Minha namorada é uma webcam
Minha namorada é uma webcam

Fetichismo e exibição
São as causas e a razão
Do meu amor por ela
Do seu amor por mim

Minha namorada é uma webcam
Minha namorada é uma webcam

Nunca conheceu o amor
Só indiferença e frigidez
A volúpia que criei
Foi no momento em que te encontrei

Minha namorada é uma webcam
Minha namorada é uma webcam

Parada, encostada num balcão
Indiferente, indiferente a situação
Foi amor logo de cara
Foi amor de perdição

Minha namorada é uma webcam
Minha namorada é uma webcam


*"Amor de Perdição" publicado em 1862, romance de Camilo Castelo Branco (1825 - 1890), um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa contemporânea.

Assista: Minha namorada é uma webcam

Fonte: Youtube

terça-feira, 26 de julho de 2011

Músicas que mencionam escritores: Trocando em miúdos - Chico Buarque



Trocando em miúdos
(Chico Buarque)



Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde



PABLO NERUDANeftalí Ricardo Reyes Basoalto (Parral, 12 de Julho de 1904 — Santiago, 23 de Setembro de 1973), foi um poeta considerado um dos mais importantes da língua castelhana do Século XX.
Exerceu também o cargo de cônsul do Chile na Espanha e no México entre 1934 a 1938.
Em 1971 recebeu o Nobel de Literatura.


Veja e ouça: Trocando em miúdos


Fonte: Youtube

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Músicas que mencionam livros: Venus in Furs - The Velvet Underground



Venus in Furs: The Velvet Underground
Letra: Lou Reed

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Clubs and bells, your servant, dont forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart

Downy sins of streetlight fancies
Chase the costumes she shall wear
Ermine furs adorn the imperious
Severin, severin awaits you there

I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears

Kiss the boot of shiny, shiny leather
Shiny leather in the dark
Tongue of thongs, the belt that does await you
Strike, dear mistress, and cure his heart

Severin, severin, speak so slightly
Severin, down on your bended knee
Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me

I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears

Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please dont forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart



Essa canção de Lou Reed para o álbum: The Velvet Underground & Nico (1967) faz referência ao livro homônimo: "Venus in Furs" (1870), de Leopold Von Sacher-Masoch.
Na edição brasileira da Editora Hedra recebeu o título de: "A vênus das Peles".


domingo, 26 de junho de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

Músicas que mencionam livros: VILA DO SOSSEGO: ZÉ RAMALHO

VILA DO SOSSEGO: ZÉ RAMALHO

Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Em seus papiros Papilon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai
Oh, com precisão

(Nos aviões que vomitavam pára-quedas)
Nas casamatas, casas vivas, caso morras
E nos delírios meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver
Oh, com aflição

Meu treponema não é pálido nem viscoso
Os meus gametas se agrupam no meu som
E as querubinas meninas rever
Um compromisso submisso, rebuliço no cortiço
Chame o Padre "Ciço" para me benzer
Oh, com devoção



Sobre o trecho:
"Nos aviões que vomitavam pára-quedas..."
Zé Ramalho encontrou e extraiu essa frase por meio do livro 'Piloto de Guerra' do autor Saint-Exupéry, sua fonte de inspiração.


Essa canção faz parte do primeiro disco e leva o nome da casa "Vila do Sossego" onde o cantor residia na praia de Maraíra em João Pessoa.



*Fonte: Youtube

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