terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O motorista, o cobrador e os marginais

Irineu, desde criança, sempre quis ser caminhoneiro.
Talvez por influência paterna, já que seu pai, havia décadas, laborava num Mercedes Benz vermelho 1113, trucado, ano 71.
Mas não o era, era motorista de coletivo na capital do estado.
Já na idade adulta fora morar em São Paulo com a esposa em busca de oportunidades melhores e com sua carteira de motorista “classe E”, presente do pai; logo iniciaria na profissão de motorista de ônibus.
E assim foi por longo período...
Irineu acordava ainda de madrugada e iniciava sua jornada a pé até a estação metrô sentido sul ao norte.
Subia em Jabaquara e descia na Estação Armênia.
Já na garagem da empresa de viação intermunicipal tomava posse de seu veículo coletivo e partia na busca intermitente a coletar pessoas, os metropolitanos.
Irineu via por meio de suas retinas, um tanto fatigadas pelo acúmulo de labor durante anos e anos, trabalhadores, desocupados, jovens em busca de um futuro promissor, jovens sem futuro algum, mulheres gestantes, mulheres com crianças, policiais, bombeiros, atletas iniciantes, professores no inicio de carreira, professores quase a aposentar, poetas e filósofos entre outros tantos.
No dia das mães último, porém, Irineu fez o que seria seu último itinerário.
Estando a conversar com o colega cobrador, ocioso naquele momento, já que quase ninguém fazia uso do coletivo naquela ocasião, percebera a entrada intempestiva de alguns jovens completamente ensandecidos e com um objetivo fúnebre: queriam dizimar vidas e adquirir matéria, não importasse quais, desde que alheias.
Fizeram-no parar. Irineu um quase herói anônimo não se deixou intimidar e numa tentativa frustrada tentou se deslocar até um DP que ficava três quadras acima.
Percebendo a alteração de rota, foi, de súbito, covardemente agredido com uma coronhada na cabeça sem chance de defesa pelo lider delinquente.
Caiu para o lado esquerdo e seu corpo se apoiou suavemente na lata do veículo.
O cobrador, dizia em ressonante voz que deveriam ter piedade de todos e poupassem suas pobres vidas.
Num diálogo ríspido e esquizofrênico os marginais ordenaram para que todos descessem. Antonio, o cobrador não mais ocioso, tentara ainda numa última atitude, arrastar o colega para fora quando se sentiu ostensivamente interrompido por uma mão armada apontando para seu peito suado e pulsante.
Todos desceram, menos Irineu inconsciente.
O pai de três meninas que ainda estudavam o fundamental sucumbiu lentamente às chamas que incendiaram todo o carro coletivo e parte da fiação elétrica e telefônica da rua em que jazia um trabalhador anônimo; em breve, manchete televisiva e primeira página do jornal sensacionalista que correria pelas bancas no dia seguinte.
Não houve gritos, talvez dor.
Mas, Irineu ficara inconsciente durante todo o período em que labaredas vermelhas e fumaça preta subiam ao céu parcialmente nublado.
Naquela manhã de outono, Século XXI a barbárie humana prevaleceu na vida daquela família, agora órfã de pai.
 
 
*Extraído de: A hora da metamorfose

domingo, 11 de dezembro de 2011

Não consegui reagir


Por favor, digam ao poeta Vinícius
Que eu tentei...
... Com todas as minhas forças


Eu juro que tentei!


Mas caí, no décimo-quinto, antes do décimo-sexto perdi
Digam-lhe que continuo sendo um modesto meio-médio
E, por favor, não apostem mais em mim





*A Rubem Fonseca

domingo, 4 de dezembro de 2011

Um domingo diferente

Naquela manhã, Josevaldo acordou bem cedo.
Estava de plantão na terceira corporação de bombeiros situada na zona oeste.
Há quatorze anos Josevaldo trabalhava nessa corporação e fora condecorado três vezes por atos de bravura e heroísmo.
Certa vez, adentrou-se num prédio de sete andares que jazia em chamas e salvou a vida de uma senhora de setenta e quatro anos que desmaiara nas escadas enquanto fazia uma lenta descida.
Por vezes ajudou a apagar chamas ardentes que consumiam sem dó nem piedade tudo o que encontravam pela frente.
Atuou contra incêndios em supermercados, num pet-shop, numa papelaria e quase sempre diagnosticava a mesma origem dos incêndios: problemas nas fiações antigas que gerava curtos-circuitos fatais.
Josevaldo era admirado pelos colegas da corporação e tinha vários amigos fora dela.
Era lateral-esquerdo do time do bairro onde morava e por vezes atuou como técnico do time juvenil da “casa de recuperação”.
Sua marca: dava branidos estridentes que ativavam a molecada a correr e marcar. No time da corporação do terceiro batalhão de bombeiros atuava no ataque, sempre pelo lado esquerdo e, por sorte, fazia muitos gols, alguns belos, outros engraçados.
Essas atuações davam a Josevaldo um status de estrela do time.
Era badalado pelos colegas antes das partidas e após iam sempre se confraternizar num churrasquinho ali mesmo no campo da corporação.
Josevaldo era abstêmio, mas adorava picanha com coca-cola.
Tinha dois filhos, um menino de treze anos, torcedor do Corinthians; que deixava Josevaldo irritado, pois todos sabiam de sua paixão pelas cores do Palmeiras.
O filho mais novo tinha oito anos e influenciado pelo irmão dava impressão de ser corintiano também.
Josevaldo, à hora do jantar nas noites de quarta, se irritava com o mais jovem dizendo:
- Traição dupla em família é demais para mim. Já sou quarentão. Não me torne um cardiopata por desgosto.
O Palmeiras é nosso time, temos que adora-lo de todo nosso coração!
Os meninos riam e desconversavam pedindo para passar a salada ou coisa parecida.
Josevaldo tentou ensinar o hino do verdão para o caçula, mas naquela manhã de sábado quando flagrou o pivete lavando sua bicicleta e cantando a primeira estrofe do hino do timão da zona leste desistiu e voltou para a estaca zero.
- Um dia vou adotar uma criança palmeirense, pois o meu sangue não gerou torcedores para meu time. E ainda torcem para o time rival. Só sendo pai para aguentar!!!
Aquele domingo dia das mães estava ensolarado e fresco.
O céu azul com poucas nuvens dava um ar de meados de outono no país tropical.
Josevaldo presenteara sua esposa com um celular, da promoção, que comprara e saíra já uniformizado para o labor.
Despedira de seus filhos ao portão e fez o caminho de rotina percorrendo quase todo o trajeto de metrô.
Dia tranquilo, TV sintonizada no campeonato italiano em dia de rodada dupla e Josevaldo liderando uma tímida torcida para o Milan.
O comandante, só para irritar torcia abertamente para a Juventus que fazia outro jogo no mesmo horário e era exibido por flashes a cada dez minutos.
Mas há cinco minutos do final das partidas e do campeonato italiano, ouviu-se um som de motocicleta.
Freagem brusca, dois homens protegidos pelos capacetes fechados e uma saraivada de balas de metralhadora em direção ao interior da corporação.
Josevaldo que acabara de se levantar para observar o que acontecia lá fora foi alvejado por doze balas potentes.
Morreu na hora. Óbito instatâneo. Sem defesa.
Outros dois companheiros atingidos não tiveram o mesmo triste final e foram levados feridos para o hospital mais próximo do corpo de bombeiros da zona oeste de São Paulo.
Naquele dia, domingo dia das mães, Josevaldo não voltou para casa.

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