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terça-feira, 1 de março de 2011

As bengalas do professor











Boa noite professor...

... O senhor já viu o novo quadro do pintor?

Aquele quadro do Guimarães Rosa montado em um cavalo negro?

Sim, esse mesmo... O que achou?

A sombra entre os dois poderia ter ficado

melhor



Ah, professor...

Nenhum detalhe escapa ao senhor!

Afinal, qual matéria, na escola, lecionou?

Todas meu filho, todas!

Inclusive literatura grega e arte chinesa



Tem certeza?

Por aqui, nunca tivemos essas matérias!

Você já foi meu aluno?

Não...

... Então!



Eis que, chega o pintor acompanhado de um amigo

Boa noite senhores, o que se passa?

Estávamos falando do seu quadro mais recente...

... Hum, o que achou professor?

Você, meu filho, bem que poderia fazer coisa mais decente!



E, o amigo do pintor pôs-se a rir freneticamente

Quem é você? - Indagou o poeta amigo do professor

Eu sou colecionador de besouros e também sou escritor

Escrevo livros infantis, pois os besouros não estão cobrindo as despesas

Vamos tomar uma cerveja, temos muito assunto para essa noite



O professor adentrou-se e sumiu por breve instante

Voltou com latas de cerveja e várias bengalas

Tomem as cervejas enquanto mostro-lhes minha nova ocupação

Agora me tornei colecionador de bengalas!

Vejam esses exemplares que arranjei na Estação da Luz



Credo em cruz!

Essas bengalas devem ter saído de algum sarcófago

E todos se puseram a rir, menos o professor

Idiotas, não sabem apreciar objetos de valor!

Não entendem quando estão diante de uma verdadeira escultura em madeira?



Mas, o senhor não era colecionador de máquinas de escrever?

Isso mesmo, era sim!

As vendi para comprar essas nobres e valiosas bengalas

Vejam essa daqui, pertenceu a Mário Quintana

E essa outra foi usada por Charlie Chaplin



O senhor não nos engana

Essas bengalas não foram nem de Chaplin

Muito menos de Quintana!

Vamos acabar com essa cerveja

E dar o fora, seu velho sacana!



Todos riram e brindaram a amizade

O poeta abriu um caderninho

E iniciou alguns versos sobre a ocasião

O colecionador de besouros resolveu partir e todos se retiraram

O professor agradeceu-lhes a visita e voltou para a sua solidão



*Baseado em conto de Fernando Sabino



terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sobre um "Encontro Marcado" com Fernando Sabino



Fernando Sabino presenteou seus leitores em 1956 com a publicação do que é considerada sua obra prima, o romance intitulado: “O encontro marcado”.


Uma narrativa urbana que nos faz caminhar pelas ruas de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro em meados do século XX, conhecendo seus moradores célebres, anônimos e os que, de alguma forma, marcaram essas cidades.


A repercussão do romance foi a melhor possível, tornando-se o livro preferido de muitos brasileiros que, nas aflições da juventude, liam e se identificavam com os dramas existenciais narrados de forma perspicaz pelo escritor mineiro. Desde aquela época, até os dias de hoje.


“O encontro marcado” é um típico romance de geração, e basicamente gira em torno dos problemas juvenis de suas personagens: os amores, o álcool, os dramas, a faculdade, escolha da profissão, a saída da casa dos pais e a mudança para a metrópole, a capital federal, na época, o Rio de Janeiro.


Vivenciado na década de quarenta, tem como protagonista Eduardo Marciano, alter ego do escritor.

Seus comparsas de toda vida: Hugo e Mauro correspondem a Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, respectivamente.

Antonieta, filha do ministro, namorada e posteriormente esposa de Eduardo, é Helena Valladares.

Toledo, um dos personagens mais importantes da história, “guia intelectual” de Eduardo por longo período é Guilhermino César.


A ênfase da narrativa parte do pressuposto que, a procura intensa do sentido da vida por Eduardo Marciano trilha um caminho incerto, transitando pelas inquietações ideológicas e políticas para as ansiedades características dos jovens da época.

Essa busca da satisfação sexual plena, da felicidade, da auto-afirmação por meio da escrita e do esporte, no caso a natação, e pela enorme ânsia de encontrar respostas sobre a existência de Deus geram um enredo que envolve o leitor do início ao final da obra.


Todos esses elementos se tornam a marca registrada da personagem até as últimas páginas do romance e constata-se, mesmo diante de expectativas e experiências mal resolvidas, a contínua busca pessoal com o auxílio de amigos, livros, amantes e garçons, e conclui-se que, o sofrimento sempre lhe trouxe aprimoramento e ponderação e, por conseguinte, lhe abriu novas perspectivas e novos entendimentos gradativamente, em relação aos valores humanos e suas relações superficiais ou aprofundadas.


Suas experiências amorosas e profissionais sempre lhe causaram excitação e entusiasmo, num primeiro momento, mas às dúvidas e a rotina lhe trouxeram decepções constantes.

Optou então, em seguir a carreira única de escritor.


O ponto alto da personagem é esse empenho em desafios constantes e um inconformismo inerente ao ser: Eduardo Marciano/Fernando Sabino, que se confundem e se unem nas linhas da narrativa.

A obra ganhou edições no exterior, e foi adaptada para o teatro.