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domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre a “Felicidade clandestina” de Clarice Lispector





A personagem central desse conto de Clarice Lispector, narra uma história que ocorreu em sua infância em Recife, Pernambuco.


Era amante da leitura desde tenra idade.

Mas, a situação financeira de sua família impedia-lhe de comprar os livros que desejavas.


Havia, outra garota, descrita como: baixa, gorda, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, que possuía o que uma criança devoradora de livros mais sonhava: seu pai era dono de uma livraria.

Todavia, a colega não valorizava o hábito da leitura e, pior, sentia-se inferior às outras coleguinhas de escola e bairro, sobretudo à narradora.


Certo dia, a filha do comerciante de livros, com enorme talento para a crueldade, informou à jovem que possuía um exemplar de Monteiro Lobato: O clássico: “As Reinações de Narizinho”.

A protagonista, então, passou a confabular consigo, imaginando-o em seus braços, o toque e o folhear das páginas, viver com ele, comê-lo e dormir ao seu lado.

Mas, ele estava muito acima de suas posses.


- É só pegá-lo em casa, te empresto, afirmava num cinismo juvenil, chupando balas fazendo barulho.


A jovem passou, a sonhar com a real possibilidade de tê-lo, mesmo que brevemente, por meio de um empréstimo.

Envolta em enorme ingenuidade, a menina rotineiramente passava na casa e o livro sempre estava indisponível, sob a alegação de que a garota chegara atrasada ou passara em hora errada e já havia emprestado-o a outra garota.


E esse suplício durou um bom tempo.

Até que, certo dia, a mãe da cruel colega, achando estranho aquelas visitas constantes em sua casa, interveio na conversa das duas e percebeu a atitude sádica da filha.


Houve uma “confusão silenciosa”; a mãe, estarrecida, descobriu a filha que tinha.

Uma jovem com perversidade em potencial.

Refazendo-se do choque, ordenou a filha que buscasse o exemplar de Lobato que nunca saíra de lá.

Sem pestanejar, num ato de corrigir um erro moral familiar, emprestou o livro à garota sonhadora.

E disse que seria: - Pelo tempo que desejasse.


A jovem, de súbito, passa a nutrir uma “felicidade clandestina” nunca antes provada ou sentida.

Tendo-o em posse, fez questão de esquecê-lo.

Chegando em casa, foi se alimentar, usava o tempo, ignorava-o.

Fingia que não o tinha.

Criava a “surpresa” de achá-lo, para que a tal, felicidade clandestina se eternizasse continuadamente durante o arrastar dos ponteiros.

Aquele gesto lhe trazia orgulho e pudor.

Às vezes, sentava-se na rede com ele no colo, abrindo-o e abstendo-se de tocá-lo.

Sentia êxtase puro.

Não era mais uma menina com um livro, era uma mulher com seu amante.





*Lispector, Clarice “Felicidade Clandestina” Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves 1996

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os versos mentem, os olhos acreditam e o coração sente


*Hoje, 20 de outubro, comemora-se o Dia do poeta.

Presto minha homenagem a todos que se sentem nessa condição.




Para cada ser solitário

Uma solidão única

Para cada verso

Interpretações abundam


Felizmente

Refletidos nas retinas

O poeta, infeliz, os mente

Mente uma angústia pressentida


Dou-te meus versos, aprecie-os

Mostre-os a quem quiser vê-los

Faça-os e entrega-os de novo

A outros tantos olhos nus


Acenda a baixa luz

Dê-me as relíquias

Desça ao porão

Enquanto todos dormem

Quantas mãos o tocarão?

domingo, 4 de outubro de 2009

Sobre a obra máxima de Cervantes














O livro Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), iniciado em 1602, pode ser considerada a melhor literatura de ficção de todos os tempos.


Composta de 126 capítulos de loucuras, amizades, sabedoria e encantamentos, são divididas em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.

A obra se baseia numa sátira às histórias de cavaleiros, muito em voga naqueles tempos.


Dom Quixote, depois de uma caçada, sentiu-se extremamente fadigado e moribundo.

Clama por ajuda e é atendido rapidamente.

Levam-no ao seu leito.

O cavaleiro, de súbito, percebe a presença da morte.

Magérrimo por toda sua existência terrena, sempre dispôs de saúde suficiente para aventurar-se pelo mundo quando bem entendera.

Vivia junto a agregados num brejo seco em La Mancha e passara seus dias inúteis lendo os feitos dos heróis de cavalaria.

Venerava-os e os tinha como ídolos e exemplos de vida profícua.


Mas um dia, de tanta leitura, seus miolos se entupiram.

Afinal, muitas lendas povoavam sua mente senil.

Um médico foi chamado e a recomendação foi à busca da salvação da alma, porque o corpo iria sucumbir brevemente.


A personagem, Amadis de Gaula, o espadachim fantástico, até então idolatrado por Quixote, passou a ser por ele odiado.

Coisas estranhas aconteciam na mente daquele enfermo homem.

Mas, num lapso de serenidade pôs-se a esperar pela morte.

Queria se livrar dos fantasmas literários que nutriam seus pensamentos doentios.

Subitamente algo ocorreu...


Com berros enfáticos, o velho Dom Quixote disse ter restaurado plenamente o juízo, livrara-se das malditas leituras que fizera sobre os feitos dos cavaleiros por toda sua vida e ordenou que pusessem uma sela em seu ordinário cavalo, Rocinante, calçou suas velhas botas e armou-se como seus antepassados: um escudo enferrujado e uma lança torta e, num ímpeto, partiu em busca de aventuras em terras castelhanas que lhe trouxessem renome e glória.

Suas andanças foram ricas em intempéries e impasses fortuitos.

Fantasiou o amor por uma dama ilusória, Dulcinéia Del Tomboso, e nutriu amizade fraterna com o camponês gorducho Sancho Pança.


“Esta que vês de rosto amondongado,

Alta de peitos, e ademã brioso

É Dulcinéia, rainha Del Tomboso,

De quem esteve o grão Quixote enamorado...” (pag. 339)


Sua grande frustração era com sua contemporaneidade.

Dizia que a invenção da pólvora estragou tudo.

Acabou-se com os nobres cavaleiros, que, ao ouvirem um disparo, fugiam rapidamente com suas lanças a balançar para o horizonte.

Em seu livro, Cervantes usa um pragmatismo crítico, do escudeiro que revela um conhecimento do mundo distante dos questionamentos e indagações do cavaleiro sobre a existência terrena, a morte e os dogmas sagrados.

Ambos carregam consigo, um conhecimento filosófico empírico e juntos esses conhecimentos se interagem e se completam.


“Tiram as almas dos eixos, as grandes forças do amor, são os cuidados do ócio, seu instrumento melhor.” (pag. 551)


Com uma visão cética, porém concisa, o escudeiro não procura respostas, já as tem pela experiência de vida.

Domina o tempo e não tem medo de enfrentar a tão temida morte.

Sancho Pança sabe transitar entre o mundo da taverna, das brigas, da morte e das agruras mundanas, sublimada empiricamente e recheada de filosofia existencialista em que se encontra o romântico cavaleiro.


"(...) Aqui jaz quem teve a sorte

De ser tão valente e forte

Que o seu cantor alegrou

Que a morte não triunfou..."

(pag.677)



*Meu exemplar: Editora Nova Cultural, São Paulo: 2002

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sobre um "Encontro Marcado" com Fernando Sabino



Fernando Sabino presenteou seus leitores em 1956 com a publicação do que é considerada sua obra prima, o romance intitulado: “O encontro marcado”.


Uma narrativa urbana que nos faz caminhar pelas ruas de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro em meados do século XX, conhecendo seus moradores célebres, anônimos e os que, de alguma forma, marcaram essas cidades.


A repercussão do romance foi a melhor possível, tornando-se o livro preferido de muitos brasileiros que, nas aflições da juventude, liam e se identificavam com os dramas existenciais narrados de forma perspicaz pelo escritor mineiro. Desde aquela época, até os dias de hoje.


“O encontro marcado” é um típico romance de geração, e basicamente gira em torno dos problemas juvenis de suas personagens: os amores, o álcool, os dramas, a faculdade, escolha da profissão, a saída da casa dos pais e a mudança para a metrópole, a capital federal, na época, o Rio de Janeiro.


Vivenciado na década de quarenta, tem como protagonista Eduardo Marciano, alter ego do escritor.

Seus comparsas de toda vida: Hugo e Mauro correspondem a Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, respectivamente.

Antonieta, filha do ministro, namorada e posteriormente esposa de Eduardo, é Helena Valladares.

Toledo, um dos personagens mais importantes da história, “guia intelectual” de Eduardo por longo período é Guilhermino César.


A ênfase da narrativa parte do pressuposto que, a procura intensa do sentido da vida por Eduardo Marciano trilha um caminho incerto, transitando pelas inquietações ideológicas e políticas para as ansiedades características dos jovens da época.

Essa busca da satisfação sexual plena, da felicidade, da auto-afirmação por meio da escrita e do esporte, no caso a natação, e pela enorme ânsia de encontrar respostas sobre a existência de Deus geram um enredo que envolve o leitor do início ao final da obra.


Todos esses elementos se tornam a marca registrada da personagem até as últimas páginas do romance e constata-se, mesmo diante de expectativas e experiências mal resolvidas, a contínua busca pessoal com o auxílio de amigos, livros, amantes e garçons, e conclui-se que, o sofrimento sempre lhe trouxe aprimoramento e ponderação e, por conseguinte, lhe abriu novas perspectivas e novos entendimentos gradativamente, em relação aos valores humanos e suas relações superficiais ou aprofundadas.


Suas experiências amorosas e profissionais sempre lhe causaram excitação e entusiasmo, num primeiro momento, mas às dúvidas e a rotina lhe trouxeram decepções constantes.

Optou então, em seguir a carreira única de escritor.


O ponto alto da personagem é esse empenho em desafios constantes e um inconformismo inerente ao ser: Eduardo Marciano/Fernando Sabino, que se confundem e se unem nas linhas da narrativa.

A obra ganhou edições no exterior, e foi adaptada para o teatro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Poeta errante





No melhor lugar do mundo


Não posso domiciliar; solitário carrego versos, devaneios


A estrada é meu lugar

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Dizem que ele sumiu...




35 anos de carreira, aproximadamente 50 discos lançados e uma intensa agenda de shows. Belchior construiu, ao longo da carreira uma obra que é tema até de estudos acadêmicos:



“Em 287 páginas, eu analiso toda a obra do Belchior”, afirma a professora Josy Teixeira, da Universidade Estadual do Ceará.


E, de repente, amigos, parceiros e a família perguntam:

Onde está Belchior?

“Para a família, ele está sumido desde 2007, há dois anos”, afirma Leonardo Scatolini, advogado da ex-mulher do cantor.

Mas, há tempos atrás, o artista presenteou a cidade de Miguelópolis, no estado de São Paulo, com um show cheio de energia e clássicas canções de seu vasto repertório.

Simpaticamente, após o show, recebeu fãs no camarim e autografou cds.

Hoje: “tem gente que diz que ele está na Holanda, tem gente que diz que ele está em São Paulo”, afirma um fã.






FONTE: G1.globo.noticias.musica

sábado, 22 de agosto de 2009

Fragmentos do poeta







Temos bons livros, fique tranquila


Poetas não escrevem, trabalham duro, fazem arte


Há versos por toda parte...


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Crenças de morros e cata-ventos em Minas Gerais









Desde o nascimento, Milton faz


A travessia das estrelas, iniciada do cais

Pela janela: esquinas, Marias, Gerais





*Dedicado a Milton Nascimento...

"E, um dia, quando a gente se encontrar, confessarei que ouvi uma canção tantas vezes que esse poema aconteceu."

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O mergulho do poeta




E agora, estou ao relento


Fui atrás de uma época que passou


Sou um trovador, lago adentro...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Desde o século XX


I

Estou sempre na mesma estrada

Me chame como quiser, vou dormir agora

Lá estão eles, os fracassados



II

Não sou tão sincero assim

Usei as ferramentas que tinha em mãos

E me machuquei com elas



quinta-feira, 30 de julho de 2009

Me defino, fui pelo destino...



Esse sou eu
Essa, minha versão
Versão dos fatos
Lembranças, filho varão
Lembro-me do rio
Quando criança, transparências
Como é que era, ilusão
Surpreendente, reminiscências
Lentamente
Pelas estações que haviam
Se cobria com aguapés
Eternamente em desalinho
Indo à escola, torrefação
Na paisagem do caminho
Quero sair daqui, ilusão!
Não posso perder tempo
Conflito
Estou leve, facilito
Ah, doutor!
Essa é a história de minha vida
Me entregue à minha garota
Estou nos braços do meu filho
E
Sorrio
Percebo que
Não sou nada
Só um peixe
Grande no rio

quinta-feira, 9 de julho de 2009

As construções de Chico





O tempo rodou num instante


Quando Chico, reflexivo, confabulava na roda gigante


Lendo casas, monumentos, construções, sentimentos



*"Construção" foi o quinto álbum do compositor Chico Buarque.

Lançado num dos períodos mais críticos do Regime Militar, fez com que o cantor fosse alvo de censura artística.

A essa obra-prima, presto minha homenagem em forma de poema minimalista.

No meio da trilha tinha uma rede (a Drummond)




Ah Drummond, se soubesses, poeta

No meio da trilha, tinha uma rede

Pois então, deitei-me regozijante, deleitei-me, senão...fadigar-me-ia





*Homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

No sul da Bahia, os pescadores




Vida de pescador

Não é só
Sal

Dor

Suor



É também

Magia

Amor

Vigor



*Dedicado a Victor Hugo e sua obra: "Trabalhadores do mar", 1866

No outono o céu tem mais cores




Naquela fria tarde de outono, minhas retinas fatigadas viram, estupefatas, essa cena colorida.


Crepúsculo no rio grande registrado à posteridade...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Estenda as mãos e toque a fé


"...reach out
and touch faith..."






Estenda as mãos
E toque a fé
Cristo!

Quem é meu salvador, enfim?
I.N.R.I. sacrificando-se por mim
Conheço as tuas obras
Abra-me as portas!
Toque a trombeta...
Quando o sétimo selo for aberto
Quero-te por perto
Foi-te dito:

Não mate!
Mas, porque atormentaste?

Escorpião a macular

Vi o veneno lhe curar

Avistaram cinco anjos
Nos quatro cantos da terra
Herdou, então,

Um rei incomum

Da Galiléia à Cafarnaum

Mas, no escuro
A paz se esvai

Sinto-me inseguro

Anjo,

Aonde vai?

Quem tem olhos, veja
Quando for, seja
Nos incensos fumegantes estaremos
Às trevas aterrorizantes

Desceremos?
Ah não!

Perdão, fogo no altar
Perdi minh’alma
Vivi a pecar

O alfa e o ômega

Tentar libertar
Estenda as mãos
E toque a fé
Voltaremos atrás?

Tarde demais
Sou homem de pouca sorte

Quando virá a derradeira morte?

Cabeça e não cauda

Infame pecador

Mais que vencedor

Prostrado de joelhos

Entre escaravelhos

Perder é ganhar

Dar é ter-se,

Renovar

A direita me sento

Ao Senhor dos rebentos

Adeus, meu corpo

Exúvia carnal

Ficaste aos vermes

Me tornei celestial








*Poema baseado na canção: "Personal Jesus", Depeche Mode
e no livro Apocalipse de João, cap:5


Na incursão de GH ao quarto da empregada, eis a barata




I


Quando Clarice, a barata, esmagara

Percebera suas vísceras, lhe apertara com asco

Ausência de perdão, anti-malogro



II


Na paixão, GH extinguira-se, sufoco

Sozinha no apartamento, se entregara ao constrangimento

Permanecera com seu ato, deflexão



III


Naquele quarto de empregada, fundos

Fluxo de consciência, permeara paixões, reafirmara questões

Não legara aquele ato, profusões






*Baseado em: "A Paixão segundo GH", um romance de Clarice Lispector (1964)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sobre nós, vulcões incandescentes



Não farei versos a ti
Óh, mulher amada
Falarei, então, sobre nós
Nossa vida delicada


Tiro da memória
Momentos, histórias
Pensamentos vão e vem
Percebo como faze-me bem


Somos como nascentes
Ou vulcões incandescentes
Histórias de fadas, surrealidade...
... Fugimos da realidade


Nunca descobrirei seu segredo, resigno
Distante, perceberás em desatino
O paraíso torna-se fatal
No cotidiano de um casal


Embora não haja poeta sem dor
Em nossa paixão não há rancor
Amo-te em decência
Quero-te em potência


Nosso caso é admirável
Em transcendência inefável
Exprimo, assim meu sentimento
Num poema, como alento



A
Tais GSM
Amor vincit omnia.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Narrativa descritiva



Esse livro começou quando, naquela manhã iniciando o curso de formação de professores, a Mestre Rosangela nos instigou a buscar reminiscências do nosso passado escolar.
Então, de súbito pensar, uma avalanche de fatos desencadearam uma vontade imensa de retratar com palavras minha infância na Escola Maria Peralta Cunha, na época Escola Estadual de Primeiro Grau.
Mas, o primeiro fato, a primeira lembrança com cheiro nostálgico, veio de uma recordação quando tinha dezessete anos e acabara de voltar de Franca no final do terceiro bimestre, para o colégio EEPG Dr Willian Amin.
O ano era mil novecentos e noventa. Ensino noturno (não havia vagas para transferência no diurno), jovens semi-adultos e as experiências inéditas com a vida, surgindo.
Tudo dentro de um contexto tecnicamente normal para um jovem de uma pequena cidade do interior paulista.
Havia uma ânsia de passar de ano, acabar o segundo grau e irmos todos viajar para Ubatuba, litoral norte do nosso estado na busca de prazer, divertimento e alegrias longe dos olhares paternos.
Mas, vamos aos fatos.
Uma história que conto até hoje, sempre. Esteja onde estiver nunca a esqueço tamanha sua força. Algo que me impele verbalmente a narrar e admiro os olhares dos ouvintes quando a ouvem produzindo gestos negativos com a cabeça e um leve sorriso labial.
A professora de língua portuguesa e gramática, dona de si e de seus saberes, adentrou a sala de aula toda imponente e a marchar num ritmo lento e pausado a olhar para sua mesa.
Não disse: Boa noite alunos.
Também não dissemos: Boa noite professora.
Fora uma permuta, de certa forma, compreendida por ambos os lados.
Após a chamada de presença, vamos trabalhar.
Dirigiu-se a lousa verde-escura e pôs-se a escrever com giz amarelo um tema de redação para aquele momento calmo e sereno, numa noite fresca e estrelada.
Eu sentava à frente do Henrique, um gênio nos cálculos matemáticos e aprendiz de eletrônica na oficina de seu pai.
Henrique se tornou meu amigo logo de cara, o que para qualquer ser humano era inédito, já que além de inteligente, Henrique era um tremendo misantropo, tímido e impar.
Mas o via como uma figura dócil e incompreendida.
As pessoas daquela sala não se aproximavam dele e vice-versa. Tudo o que ele fazia era estranho para a garotada.
Metade da sala só queria saber de futebol e a outra metade de bicicleta.
Alguns, mais velhos, já possuíam habilitação para dirigir e esses só falavam de som automotivo e das meninas que conseguiam conquistar. Por causa dos carros, é claro.
As meninas iam maquiadas e gostavam de namorar na entrada do colégio antes do sinal soar e ficavam a esperar seus namorados ao final da aula.
Vez ou outra havia envolvimento entre alguma garota e garoto da própria sala.
No terceiro colegial noventa e nove por cento da turma só pensa em relações amorosas.
O um por cento talvez fosse o Henrique, seus cálculos matemáticos e seu caderno fichário com a foto do Einstein com a língua de fora.
O Tema da redação era: Meu quarto. Isso mesmo: Meu quarto.
O que ela queria com aquilo até hoje não sei ao certo, mas, numa época em que: Pena de Morte, Derrubada do Muro de Berlim e Perestroika eram assuntos pertinentes o que a professora queria dizer com: Meu quarto!
Virei-me para trás num giro vertebral lombar e fiz um olhar incisivo para o Henrique. Ele me fez um bico gigante avançando o lábio esquerdo para frente e disse-me:
- Narrativa descritiva.
Eu ainda naquela posição pensei sorrindo naquelas composições da terceira e quarta séries que fazíamos quando crianças. Composições do tipo:
O Circo.
Exercitávamos assim:
O Circo chegou à minha cidade. O circo é bonito e colorido.
O circo tem mágico e palhaços. O Circo tem elefantes e leões.
Eu gosto de ir ao circo com a mamãe aos domingos...

E por aí ia minha imaginação lúdica a lembrar daqueles tempos ricamente pobres para a criação de um texto elaborado.
Narrativa descritiva, pensei e me virei novamente na carteira corrigindo meu corpo no espaço.
Comecei mais ou menos assim:

Eis meu quarto escuro e fechado.
Paredes sombrias expressam meu sentimento de expectativa em relação ao futuro do mundo.
O muro de Berlin agora é história e a Alemanha está unificada.
Pensamento surreal pouco tempo atrás.
Pink Floyd é presença sobre minha cama, colado na parede, na qual me recolho e que não me permite voltar ao tempo que passou.
A ansiedade que me acomete cuida de minhas frustrações e alegrias e com ela aprendi a conviver dentro de meu quarto...

Foi um pedido de socorro. Não me dei conta do que tinha escrito na época e hoje só me recordo do inicio do texto, mas sei muito bem que foi um pedido de socorro de uma criança de dezessete anos, família pobre, cidadela interiorana, a viver num cenário transformador:
Inicio da hegemonia capitalista no mundo e o rock brasileiro tomando sua forma definitiva. Ayrton Senna nos alegrando as manhãs de domingo.
A temível inflação brasileira totalmente fora de controle e o presidente Fernando Collor de Melo confiscando os saldos bancários.
A crise do álcool e o Brasil sendo eliminado pela Argentina nas oitavas-de-final da Copa do Mundo da Itália.
Serginho Groysman com seu Programa Livre nas tardes do SBT e o Corinthians buscando seu primeiro título de campeão brasileiro.
Entregamos as redações à professora com a promessa de que na próxima aula todas estariam corrigidas e comentadas por ela.
Na semana seguinte, uma semana teoricamente normal e sem intempéries escolares a professora se adentrou a sala do mesmo modo que sempre fazia.
Realizou a habitual chamada, como sempre, e começou a entregar as redações supostamente corrigidas e comentadas.
Estando a conversar com o Henrique fiquei na espera de minha nota e mais ainda do comentário.
Aí é que o improvável se materializou bem a frente de minhas retinas novéis.
Minha redação não foi entregue e fui chamado à mesa da professora.
Chegando lá fui indagado com veemência:
- Quem fez essa redação para você?
Ou melhor, de onde você copiou esse texto?
Estatelei os olhares e estralei os dedos da mão.
Como, aquela senhora tinha a audácia de me perguntar aquilo e consequentemente me acusar de plágio na frente de toda a sala.
Todos se calaram a esperar minha resposta, inclusive a professora que me olhava de baixo para cima por trás dos óculos, sentada em sua cadeira de madeira escura.
- Fui eu mesmo que fiz professora, pergunte para o Henrique. Mas se não acreditar mesmo assim, me de outro tema que faço outra.
Olhando-me aflitiva disse coisas que não me recordo e com mais uma ameaça ao final de sua verborragia escreveu o numeral 10, pequenininho, com sua caneta esferográfica vermelha ao lado do título de minha polêmica redação.
O ar livre à noite pós-aula estava mais contemplativo e tácito. Minha cabeça estava tranqüila, todavia a pensar o fato ocorrido naquela inesquecível aula de português.
Sabia que se ela achava que eu havia copiado algum texto é porque havia surpreendido a professora com minhas frases tristes.
E melhor ainda, se ela, mesmo a relutar, me deu um dez é porque o texto era de alguma forma, bom.
Voltei para casa a pé como sempre fazia. Era uma caminhada de trinta minutos e podia exercitar bem meu ato de pensar em coisas do cotidiano.
Adoro caminhar por isso, é caminhando que a gente pensa.

Naquela manhã de sábado, na Escola Toulouse, relembrei esse dia como se fosse há três dias atrás. Lembrava-me de tudo e isso me fascinou por completo.
Todavia, não conseguia materializar esse conto como eu queria e ansiava.
Produzi outros tantos e sempre deixava esse para depois.
Penso agora que finalmente consegui.