sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sr. Geraldo e os morangos silvestres

*Em memória de meu avô.






O anjo se sensibiliza quando me fala sobre o pecado original
Faz-me perceber, ao longe, o sino, mas não consigo sentir a sua presença
E quando não há mais luz entre nós, dá-me um beijo sensual
Enquanto durmo...


Nessa noite pude lembrar-me do sonho que tive essa manhã
Estava caminhando numa cidade conhecida, ruas familiares
Muito parecidas, num bairro preto e branco
E me perdi caminhando numa larga avenida


Não havia ponteiros no relógio da torre e o do meu punho havia parado às duas e quarenta
Carruagens vagavam lentamente, seguindo um funeral
Eis que vi o corpo deitado naquele caixão branco
Tão pequeno... Pude ver a criança que jazia dentro dele


E, aproximando-me, inerte, fixei-me em sua face
Meu Deus... Era a minha, desse velho de noventa e quatro anos!
Onírico, egoísta, misantropo e extremamente metódico
Então, lembro-me que amanhã à noite receberei um prêmio em minha cidade natal


Ah, esse mérito bem que poderia ser de “O pequeno sonhador”!
O tempo pesa, sinto-me mais velho do que realmente sou
Ainda haverá perdão para os meus pecados?
Já deitado, mergulho em um sono profundo...


Sinto o calor do dia raiando, penso em me levantar
Levantar mais cedo do que o planejado, arrumar as malas e sair a contento
Sim eu vou... Não rumo ao prêmio
Rumo às reminiscências que me trarão alento



*Baseado em “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman (1957).
*A Geraldo Alves Ribeiro (15/07/1917 – 07/10/2011).

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