quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

No tempo em que aceitávamos as delícias preparadas










I



Teu prazer me entendia, trazia-me paz

Na colheita anual de 73, perdemos a inocência, fez-se trégua

Éramos fortes, avançávamos em nome da existência fugaz

Degustávamos tintos secos com procedência

Amávamo-nos entre estranhos, sob o sol, entregamo-nos em essência



II



Como fidalgos, sentávamos à mesa com decência

Entreolhando-nos, aceitávamos as delícias preparadas

Tudo nela nos pertencia, as provávamos e sorríamos

Bebíamos o sangue, a carne fria e as iguarias, comíamos

Espalhávamos discursos que uma palavra esgotar-nos-ia

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

No bar do Joaquim, com amigos beberiquei






I



Visitei a velha cidade empoeirada

Não era a mesma, abstraíra-se de mim

Cães famintos, transeuntes insanos, pedintes profanos




II



Todos me rodeavam, falastrões chafurdavam

Copo, deste lado, o término nunca existiu, enfim

Brindemos amigos, no bar do Joaquim!














*Homenagem aos amigos de boteco

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fiz a lição, mas não houve correção





Bati à porta do professor
E não me cansei de esperar, aguardei
Logo ele me atenderá, afirmei



Levantei cedo, em tempo?, atrasei!
Partiu antes, dobrou a esquina, densa neblina
Aquela lição ficou sem correção

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ponto de mutação (1992)







“Quando as portas da percepção forem abertas

veremos as coisas como elas realmente são: infinitas.”

(W. Blake)




  • Direção: Bernt Capra
  • Baseado em livro de Fritjof Capra (1982)
  • Personagens: Uma cientista, um político (candidato a presidência dos EUA) e um poeta escritor.

Encontro das personagens: Monte São Michel, França (analogia do lugar escolhido com o pensamento do Século XVII).

Idéias, reflexões e proposições marcam os diálogos.

A personagem cientista é representada por uma mulher que passa por uma crise de identidade profissional, visto que suas experiências foram utilizadas para fins não pacíficos.


O político enfrenta conflitos pessoais por não ter sido eleito presidente dos EUA e, decide visitar o amigo poeta para, quem sabe, redescobrir o caminho do sucesso pessoal e profissional.


O poeta é platônico e possui uma visão holística do mundo. Procura em seus pontos de vista ser antagônico ao pensamento do político.

Ao se encontrarem, a cientista e o poeta, ambos ganham força e seus questionamentos junto ao político o fazem despertar para uma nova visão do mundo que herdaram e vivem.


Há possibilidade de ruptura do pensamento cartesiano, nesses diálogos entre as personagens, então, supõe-se que o paradigma dominante está sendo revisto e questionado.

Houve o período de apogeu e glória desta linha de ensino-aprendizagem e atualmente ela é nada mais que uma representação do passado incorporado no presente.


A visão contemporânea aperfeiçoada tende a romper com o pensamento medieval imposto a mais de trezentos anos.

Esse embrião do novo paradigma deve gerar novos meios e novos caminhos para a sociedade contemporânea, unindo conhecimento científico com experiência política e conhecimento empírico (como uma forma de visão platônica do mundo atual e futuro).

Então, unindo o conhecimento científico com o conhecimento empírico chegaremos a esse novo paradigma proposto.

Devemos manter uma tênue relação entre todos os elementos do Universo, analisar “O Todo” como um grande contexto a ser abordado agora e nas gerações futuras.

As questões do mundo intuitivo passam a ser uma necessidade atual, enquanto as questões mensuráveis pela ciência passam a ser o “velho paradigma”. Mas, ambas devem estar em harmonia plena.


No seu livro, Fritjof Capra questiona o papel do Homem como detentor das ciências e deixa claro que tudo é passível de análise e que há várias formas de entendimento e interpretação e que nem todos entendem a mesma coisa sobre determinado assunto ou teoria.


Como formadores de opinião conscientes do papel exercido para a formação de novas gerações de pensadores devemos nutrir debates, questionar, indagar e analisar as teorias antes de aceita-las plenamente.

Também devemos saber que o que não conseguimos explicar é devido somente à falta de conhecimento que temos sobre aquele determinado assunto.


No modelo Cartesiano de educação, fragmentamos os conteúdos e fragmentamos o conhecimento.

Há, portanto, uma especialização dos saberes em detrimento do conhecimento como um todo.

O discente aprende de forma isolada sem conseguir gerar uma ramificação das relações, das causas e dos efeitos das matérias estudadas.

Deveríamos ser educados para estarmos preparados e em equilibro para, antes de aceitarmos opiniões impostas, buscarmos entendê-las no contexto em que foram criadas e citadas.

Esse, portanto seria nosso “Ponto de mutação”.


A evolução de nossa visão holística sobre os seres, as filosofias e as coisas.

Agir de forma passiva e sem atitude diante de impasses ideológicos, didáticos, políticos ou educacionais, também não é a solução para os problemas que nos circundam.

O modelo da “indiferença plena” deve ser descartado.

Todavia, a busca incessante do conhecimento holístico como embasamento entre todos os elementos que regem o Universo, torna-se imprescindível para formação das novas sociedades.

Também deveríamos estar aptos a explanar nossas idéias de forma coerente clara e enfática e não-fundamentalista, sendo flexíveis quando a situação exigir esse comportamento.

A busca constante do conhecimento, ampliando os limites cognitivos de quem aprende como aluno sedento por conhecimento e de educador, apto a facilitar os mecanismos de ensino-aprendizagem.


A nossa mutação evolutiva formará um novo Homem, num novo planeta auto-sustentável.

Deste modo, cria-se uma interação mútua geradora de benefício a todos, trazendo crescimento cognitivo causador de produtividade dentro do contexto escolar e acadêmico, consequentemente, entendendo-se ao contexto social e político.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Quando me deparei com aquela tempestade em janeiro





A voz da tempestade, em meus ouvidos, ecoou:
Sem acepção, os bons e os maus temerão os dias vindouros!
Ao longe pude ouvi-la e agora, rapidamente se aproximou
Diante desse sonho, desfez-se a nebulosidade nos meus olhos


Quem se alegrará na alvorada?
Resta-me um verso, raio de lucidez na calçada alagada
Não molhe nossas bibliotecas, nossas roupas no varal
Purifique nossos ares, preserve nossos livros, nossas fotografias, nossos filhos


Acene-me, com ramos e ventos suaves, ao final
Vi um menino deslizar pela enxurrada...
... Sem rastro, como a noite negra que passou
Em seu tecido encharcado e gasto, reparava-me


À minha frente, sua face pálida me fitou
Nunca mais me esqueci daqueles olhos desconcertantes
Porque aquele olhar refletido n' água precipitada


Ah meu Deus, fez-me chorar!
Era negro e profundo...
... Era o meu, a me questionar

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Há três dias a chuva cai e você está vivo







Não sou conselheiro

Nem escravo do dinheiro

Mas, se puder ouvir, vou lhe dizer:

É divertido estar vivo! Pode crer!



É sedutor flertar com o fogo

Mas, o que alimenta as chamas?

Os corpos?

Meu ego, seus dramas?



Isso então me mostra como é perigoso amadurecer

Serve-me como lição

Mantendo-se fiel aos princípios

Sendo prudente, sem perder a razão



Vou queimar-me sem parar, para todo sempre

E sempre, numa visão romanceada da verdade

De que é melhor

Estar vivo do que morto



Absorto, vejo um pássaro amarelo
Que canta e voa sem preocupação

Eu, incomodado, em minha casa atrás da janela

Ouço a chuva há três dias

E o pássaro, indiferente, voa e canta sob ela

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Miguelópolis Revisited




Há tempos perdemos a intimidade
Dessa cidade, conheço as ruas a dedo
Carrego comigo, seus medos, seu pó nas narinas
E da infância, reminiscências e alvitres nas retinas

Sinto falta da bicicleta, do Rio Grande, da bola e do rolimã
Do campinho do Sílvio, da Cohab, da casa 115
Frutas da época: carambola, goiaba vermelha, manga e romã
Saí muito jovem, ainda tinha a mente sã

A Matriz está lá, as velhas e seus escapulários
Defronte ao Bar do Joaquim, sem as árvores, o Santuário
Sua fonte e nos seus bancos ainda sentam corruptos e salafrários
Onde os jovens se encontram e verbalizam sem horário nem dicionário

O Estádio Waldemar de Freitas e suas falhas na grama
A esquina da Nenê não tem mais o pé de boldo nem a roseira
Poucos amigos restaram, besteira
Sou saudosista, que pieguice
Na Socremi, encontrava-me com a Inês, a Fernanda e a Clarisse

Passando pelas ruas retas e largas, olho para o céu a caminho da Marcenaria do Miguel
Ainda desvio dos ciclistas, dos cachorros e das carroças vou escapando
Logo ali, depois da Radio Vale, pelo Cartório do Sr Didi, passo acenando
Lá, algumas coisas nunca mudam, de rostos e lugares vou lembrando...
A loja da Dona Célia, a sorveteria do Florisvaldo, a Casa São José e o Bar do Zé Fernando

Estão todos imunes ao tempo, para minha saudade contemplar
Amigos de infância, fatos, mitos e insights em reentrâncias
Em verdade, com sinceridade, escute-me, vou falar:
Tenho corpo e labor em outro lugar
Mas, foi lá que meu coração nunca deixou de habitar

domingo, 8 de novembro de 2009

Zé-do-Burro, o pagador de promessas




Vi tudo de longe, pela grande tela

Zé-do-Burro, faca em punho, avança pelas escadas velhas

Pelo sacro-dever, o padre o impede, a promessa não se cumprirá

O delegado antecipa-o, quem lhe desafiará?

O povo lhe defende, surge uma onda humana

Na confusão ouviu-se um tiro, uma consternação

No meio da multidão, olhei para o lado, doía-me o coração

Estouro de boiada, corre-corre, dispersão

Na porta da igreja escolhida, Zé-do-Burro, jaz ao chão

Rosa grita, um choro em explosão

Lá vem o padre, sinal da cruz

Encomenda da alma do pobre moribundo sertanejo

Rosa o afasta, com olhar de desprezo

O Mestre Coca, capoeirista, faz gesto preciso aos companheiros

Inclinam-se sobre o corpo estendido na ladeira

Fixam-no na cruz da promessa vã

Numa nobre homenagem derradeira

Carregam-no assim, como um crucificado

O padre recua sobre os degraus ensanguentados

Avançam-no, pela entrada principal

Arrombam a porta, dirigem-se ao altar, numa entrada triunfal

Termina a peregrinação, cumpre-se a promessa ao burro Nicolau



*O Pagador de Promessas é um filme brasileiro de 1962, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, dirigido por Anselmo Duarte (Salto, 21 de abril de 1920 - São Paulo, 7 de novembro de 2009), baseado na peça teatral de Dias Gomes.

*A Anselmo Duarte e sua obra-prima, minha homenagem póstuma em forma de prosa-poética.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss, não entristeça nossos trópicos



As alianças são mais importantes

Para a estrutura social

Que laços de sangue seletos?

Culturas são como sistemas de signos

São partilhados e estruturados por finos princípios

Que estabelecem o funcionamento do intelecto


Existem regras estruturantes

Sobre as culturas, na mente humana

E estas regras raízes

Constroem pares de oposição

Organizam todo o sentido, corrigem a direção

Aprendi isso, num livro de viagem

Repleto de passagens duras

Onde o Lévi-Strauss fez investigações puras


Interessado pelas filosóficas e verdes paragens

Com o único objetivo do conhecimento pleno, das linguagens

Indagações pessoais desse paladino estrangeiro

Antropólogo que aqui veio, sorrateiro

Sobre o status de mestre

Analisou nossas tribos, nossa cultura em formação

Fotografou a urbanidade de São Paulo em construção

Entre o Velho e o Novo Mundo, uma lágrima no coração

Concepções de progresso e de civilização

Nessas plagas, tristes trópicos, nosso povo em expansão





*Claude Lévi-Strauss (Bruxelas, 28 de novembro de 1908 - Paris, 31 de outubro de 2009)



domingo, 1 de novembro de 2009

Sobre a “Felicidade clandestina” de Clarice Lispector





A personagem central desse conto de Clarice Lispector, narra uma história que ocorreu em sua infância em Recife, Pernambuco.


Era amante da leitura desde tenra idade.

Mas, a situação financeira de sua família impedia-lhe de comprar os livros que desejavas.


Havia, outra garota, descrita como: baixa, gorda, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, que possuía o que uma criança devoradora de livros mais sonhava: seu pai era dono de uma livraria.

Todavia, a colega não valorizava o hábito da leitura e, pior, sentia-se inferior às outras coleguinhas de escola e bairro, sobretudo à narradora.


Certo dia, a filha do comerciante de livros, com enorme talento para a crueldade, informou à jovem que possuía um exemplar de Monteiro Lobato: O clássico: “As Reinações de Narizinho”.

A protagonista, então, passou a confabular consigo, imaginando-o em seus braços, o toque e o folhear das páginas, viver com ele, comê-lo e dormir ao seu lado.

Mas, ele estava muito acima de suas posses.


- É só pegá-lo em casa, te empresto, afirmava num cinismo juvenil, chupando balas fazendo barulho.


A jovem passou, a sonhar com a real possibilidade de tê-lo, mesmo que brevemente, por meio de um empréstimo.

Envolta em enorme ingenuidade, a menina rotineiramente passava na casa e o livro sempre estava indisponível, sob a alegação de que a garota chegara atrasada ou passara em hora errada e já havia emprestado-o a outra garota.


E esse suplício durou um bom tempo.

Até que, certo dia, a mãe da cruel colega, achando estranho aquelas visitas constantes em sua casa, interveio na conversa das duas e percebeu a atitude sádica da filha.


Houve uma “confusão silenciosa”; a mãe, estarrecida, descobriu a filha que tinha.

Uma jovem com perversidade em potencial.

Refazendo-se do choque, ordenou a filha que buscasse o exemplar de Lobato que nunca saíra de lá.

Sem pestanejar, num ato de corrigir um erro moral familiar, emprestou o livro à garota sonhadora.

E disse que seria: - Pelo tempo que desejasse.


A jovem, de súbito, passa a nutrir uma “felicidade clandestina” nunca antes provada ou sentida.

Tendo-o em posse, fez questão de esquecê-lo.

Chegando em casa, foi se alimentar, usava o tempo, ignorava-o.

Fingia que não o tinha.

Criava a “surpresa” de achá-lo, para que a tal, felicidade clandestina se eternizasse continuadamente durante o arrastar dos ponteiros.

Aquele gesto lhe trazia orgulho e pudor.

Às vezes, sentava-se na rede com ele no colo, abrindo-o e abstendo-se de tocá-lo.

Sentia êxtase puro.

Não era mais uma menina com um livro, era uma mulher com seu amante.





*Lispector, Clarice “Felicidade Clandestina” Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves 1996

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os versos mentem, os olhos acreditam e o coração sente


*Hoje, 20 de outubro, comemora-se o Dia do poeta.

Presto minha homenagem a todos que se sentem nessa condição.




Para cada ser solitário

Uma solidão única

Para cada verso

Interpretações abundam


Felizmente

Refletidos nas retinas

O poeta, infeliz, os mente

Mente uma angústia pressentida


Dou-te meus versos, aprecie-os

Mostre-os a quem quiser vê-los

Faça-os e entrega-os de novo

A outros tantos olhos nus


Acenda a baixa luz

Dê-me as relíquias

Desça ao porão

Enquanto todos dormem

Quantas mãos o tocarão?

domingo, 11 de outubro de 2009

Sobre: “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector






Clarice Lispector transmite ao leitor de “A Paixão segundo G.H.” romance existencialista publicado pela primeira vez em 1964, as intranquilidades espirituais e os dilemas emocionais da personagem G.H.

A primeira vista, uma mulher discernida e bem sucedida na profissão e nas relações sociais, mas que anseia encontrar a auto-identidade e, nas profundezas de seu apartamento classe média-alta carioca, parte em busca do conhecimento interior.

Vagando só em seu recolhimento urbano, chega ao pequeno quarto da empregada, que naquele dia, se encontrava “quase vazio”.


Depara-se diante de uma repugnante e nojenta barata.

Uma observa a outra, G.H. observa a outra e a si.

Desencadeia-se, de súbito, em G.H., toda uma sequência de fatos conexos, levando-a à refletir sobre o sentido de sua existência e dos seres ao seu redor.

A sua pior descoberta experimenta diante da barata viva:


"A de que o mundo não é humano. E ninguém é humano o bastante".


Esse “fluxo de consciência” é a essência que dá forma ao romance introspectivo, criado por Clarice.

À medida que surgem, na cabeça da personagem, os pensamentos são materializados numa escrita baseada no estudo da consciência, uma viagem ao âmago, que traz à tona a plena crise individual de uma senhora de meia-idade.

Não há uma estória com inicio, meio e fim.

A narrativa se inicia num momento qualquer, enquanto a personagem, numa aflição subentendida, tecla compulsivamente várias vezes uma letra em sua máquina de escrever.

A atmosfera de instabilidade emocional retratada nas páginas do romance é o grande atrativo da obra.

Ele dever ser sentido. Não há como lê-lo.


As aflições devem ser perspicazmente percebidas pelo leitor a cada virada de página.

De seu apartamento, ultimo andar de um edifício de 13; G.H., depara-se com a corrosiva rotina e resolve então, adentrar-se ao quarto da empregada que acabara de demitir.

Há meses não ia até aquele pequeno cômodo serviçal.


Eis que, ao “invadi-lo”, também se “invade”.

E nessa, “incursão à alma” vê-se num enorme vazio interior.

Avista uma solitária barata deixando o armário e tem-se então, um momento de manifestação dos sentidos primitivos, imaginando ser necessário “voltar às origens” para resgatar a felicidade plena, sem vícios ou cinismos.


Deveria interagir, tocar e provar a barata para irromper sua solidão mascarada, seu mundo alienado e asséptico e assim, re-descobrir sozinha, o caminho.

O caminho através da náusea.

O momento que antecede a “revelação da busca interior” traz náusea violenta do enorme fardo de angustia que se instalara na mente da personagem.

A dolorosa sensação da fragilidade da condição humana, a dúvida e a incerteza das escolhas e dos caminhos percorridos e a percorrer, de certa forma, geram no leitor o desenvolvimento do senso crítico e os modos de aceitar suas falhas e dominar seus medos e incertezas quanto à sombra do passado escurecendo o futuro.

E, só assim, surge a “epifania”, o regozijo pleno da revelação.

"(...) porque não és nem frio nem quente, porque és morno, eu te vomitarei da minha boca, era Apocalipse Segundo São João, e a frase que devia se referir a outras coisas das quais eu já não me lembrava mais, a frase me veio do fundo da memória...”

*Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920.

Morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário.

domingo, 4 de outubro de 2009

Sobre a obra máxima de Cervantes














O livro Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), iniciado em 1602, pode ser considerada a melhor literatura de ficção de todos os tempos.


Composta de 126 capítulos de loucuras, amizades, sabedoria e encantamentos, são divididas em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.

A obra se baseia numa sátira às histórias de cavaleiros, muito em voga naqueles tempos.


Dom Quixote, depois de uma caçada, sentiu-se extremamente fadigado e moribundo.

Clama por ajuda e é atendido rapidamente.

Levam-no ao seu leito.

O cavaleiro, de súbito, percebe a presença da morte.

Magérrimo por toda sua existência terrena, sempre dispôs de saúde suficiente para aventurar-se pelo mundo quando bem entendera.

Vivia junto a agregados num brejo seco em La Mancha e passara seus dias inúteis lendo os feitos dos heróis de cavalaria.

Venerava-os e os tinha como ídolos e exemplos de vida profícua.


Mas um dia, de tanta leitura, seus miolos se entupiram.

Afinal, muitas lendas povoavam sua mente senil.

Um médico foi chamado e a recomendação foi à busca da salvação da alma, porque o corpo iria sucumbir brevemente.


A personagem, Amadis de Gaula, o espadachim fantástico, até então idolatrado por Quixote, passou a ser por ele odiado.

Coisas estranhas aconteciam na mente daquele enfermo homem.

Mas, num lapso de serenidade pôs-se a esperar pela morte.

Queria se livrar dos fantasmas literários que nutriam seus pensamentos doentios.

Subitamente algo ocorreu...


Com berros enfáticos, o velho Dom Quixote disse ter restaurado plenamente o juízo, livrara-se das malditas leituras que fizera sobre os feitos dos cavaleiros por toda sua vida e ordenou que pusessem uma sela em seu ordinário cavalo, Rocinante, calçou suas velhas botas e armou-se como seus antepassados: um escudo enferrujado e uma lança torta e, num ímpeto, partiu em busca de aventuras em terras castelhanas que lhe trouxessem renome e glória.

Suas andanças foram ricas em intempéries e impasses fortuitos.

Fantasiou o amor por uma dama ilusória, Dulcinéia Del Tomboso, e nutriu amizade fraterna com o camponês gorducho Sancho Pança.


“Esta que vês de rosto amondongado,

Alta de peitos, e ademã brioso

É Dulcinéia, rainha Del Tomboso,

De quem esteve o grão Quixote enamorado...” (pag. 339)


Sua grande frustração era com sua contemporaneidade.

Dizia que a invenção da pólvora estragou tudo.

Acabou-se com os nobres cavaleiros, que, ao ouvirem um disparo, fugiam rapidamente com suas lanças a balançar para o horizonte.

Em seu livro, Cervantes usa um pragmatismo crítico, do escudeiro que revela um conhecimento do mundo distante dos questionamentos e indagações do cavaleiro sobre a existência terrena, a morte e os dogmas sagrados.

Ambos carregam consigo, um conhecimento filosófico empírico e juntos esses conhecimentos se interagem e se completam.


“Tiram as almas dos eixos, as grandes forças do amor, são os cuidados do ócio, seu instrumento melhor.” (pag. 551)


Com uma visão cética, porém concisa, o escudeiro não procura respostas, já as tem pela experiência de vida.

Domina o tempo e não tem medo de enfrentar a tão temida morte.

Sancho Pança sabe transitar entre o mundo da taverna, das brigas, da morte e das agruras mundanas, sublimada empiricamente e recheada de filosofia existencialista em que se encontra o romântico cavaleiro.


"(...) Aqui jaz quem teve a sorte

De ser tão valente e forte

Que o seu cantor alegrou

Que a morte não triunfou..."

(pag.677)



*Meu exemplar: Editora Nova Cultural, São Paulo: 2002

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sobre um "Encontro Marcado" com Fernando Sabino



Fernando Sabino presenteou seus leitores em 1956 com a publicação do que é considerada sua obra prima, o romance intitulado: “O encontro marcado”.


Uma narrativa urbana que nos faz caminhar pelas ruas de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro em meados do século XX, conhecendo seus moradores célebres, anônimos e os que, de alguma forma, marcaram essas cidades.


A repercussão do romance foi a melhor possível, tornando-se o livro preferido de muitos brasileiros que, nas aflições da juventude, liam e se identificavam com os dramas existenciais narrados de forma perspicaz pelo escritor mineiro. Desde aquela época, até os dias de hoje.


“O encontro marcado” é um típico romance de geração, e basicamente gira em torno dos problemas juvenis de suas personagens: os amores, o álcool, os dramas, a faculdade, escolha da profissão, a saída da casa dos pais e a mudança para a metrópole, a capital federal, na época, o Rio de Janeiro.


Vivenciado na década de quarenta, tem como protagonista Eduardo Marciano, alter ego do escritor.

Seus comparsas de toda vida: Hugo e Mauro correspondem a Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, respectivamente.

Antonieta, filha do ministro, namorada e posteriormente esposa de Eduardo, é Helena Valladares.

Toledo, um dos personagens mais importantes da história, “guia intelectual” de Eduardo por longo período é Guilhermino César.


A ênfase da narrativa parte do pressuposto que, a procura intensa do sentido da vida por Eduardo Marciano trilha um caminho incerto, transitando pelas inquietações ideológicas e políticas para as ansiedades características dos jovens da época.

Essa busca da satisfação sexual plena, da felicidade, da auto-afirmação por meio da escrita e do esporte, no caso a natação, e pela enorme ânsia de encontrar respostas sobre a existência de Deus geram um enredo que envolve o leitor do início ao final da obra.


Todos esses elementos se tornam a marca registrada da personagem até as últimas páginas do romance e constata-se, mesmo diante de expectativas e experiências mal resolvidas, a contínua busca pessoal com o auxílio de amigos, livros, amantes e garçons, e conclui-se que, o sofrimento sempre lhe trouxe aprimoramento e ponderação e, por conseguinte, lhe abriu novas perspectivas e novos entendimentos gradativamente, em relação aos valores humanos e suas relações superficiais ou aprofundadas.


Suas experiências amorosas e profissionais sempre lhe causaram excitação e entusiasmo, num primeiro momento, mas às dúvidas e a rotina lhe trouxeram decepções constantes.

Optou então, em seguir a carreira única de escritor.


O ponto alto da personagem é esse empenho em desafios constantes e um inconformismo inerente ao ser: Eduardo Marciano/Fernando Sabino, que se confundem e se unem nas linhas da narrativa.

A obra ganhou edições no exterior, e foi adaptada para o teatro.

Reflexões de um velho ourives sobre a solidão, os versos e os pássaros





Nogueira sentiu um vazio

Tomou-se por triste

Naquele dia frio

Absorto, abriu um livro nunca lido

Observou suas páginas preenchidas

Que o poeta, outrora

Viveu a sina do escritor

Escrevia porque era só

E preenchia seu estado ermo

Com caneta e esplendor



Tia Augusta dizia-me na cidade

“Feliz é quem mora no campo”

Não se ensoberbece

Vive-se mais, com sanidade

Esperteza e destreza

Desenvolvem-se habilidades

Aprende-se a ler as estações

Sabidos são o vento e a chuva

Com seus raios e trovões

Como árvores que entregam frutos

Na época esperada

Nunca falham, são precisas

Generosas por natureza

Cedem galhos com carinho

Aos pássaros, vários deles

Seus ovos, suas cores

E seus ninhos

Flores, frutos e pinhos



As flores dão-nos perfumes

Sem pedirmos-lhes nada

Alusão da vida

Mistérios do Criador

Assim como a dor

Que nos vem de graça

Oscilante, inebriante

Borboletas em revoada

Passam como astros no universo

Em pensamento, olho tudo

Pelo tempo, me disperso

Nasci rude, obtuso, mas correto



Aves não deixam rastro

Na minha idade já não corro

Atrás do ouro, diamantes

Pedras preciosas, roupas caras

Carros e mulheres degradantes

Ociosas são minhas mãos

No momento, oscilação

Nem tento mais

Pois, tremo demais

Já cumpri minha missão

Siga os passos que deixei

Pense nas coisas que procurei

E, não querendo achar

Me encontrei

Meus vídeos

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